29/07/2009

LUZ CRISTALINA



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Beleza
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Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.
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Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.
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Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:
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É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.
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Almeida Garrett

05/06/2009

À MINHA MÃE

Juventude

Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca. Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.
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Eugénio de Andrade

21/03/2009

NESTE TEU DIA...

Num exemplar das Geórgicas
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Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
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Eugénio de Andrade

29/07/2008

PARA TI... COM PERFUME!
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(29 de Julho de 2008)
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Foi para ti que criei as rosas.
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Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei ás romãs a cor do lume.
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Eugénio de Andrade

09/06/2008

SÊ FELIZ SEM BARREIRAS
(9.06.2008)






A Ave
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Voava em voo rasante
como se nesse instante
trouxesse o peso da vida inteira.
Pousou na areia suave
aquela pequena ave
de cabeça altaneira.
Correu, picou aqui e além
com a agitação de quem
está atenta, mas ansiosa.
Foi marcando a areia lisa
de marcas suaves, que a brisa
ia apagando criteriosa.

Sumiam as marcas na areia
e as minhas, da vida inteira
fugiam na brisa cálida.
A alma, plena de mar
leve, partiu a voar
deixando a velha crisálida.

Voou a andorinha no céu,
como fosse reino seu,
as alturas conquistando.
Teceu bordados no ar,
perdeu-se para lá do mar,
livre, sempre voando.

A par da pequena ave
cruzei mar sem bote ou nave,
subi no azul sem fronteiras,
saltei no algodão das nuvens,
sequei ao sol as penugens,
fui livre e feliz sem barreiras.


Helena Guimarães

05/06/2008

PARA TI... MINHA QUERIDA!











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Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.
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Eugénio de Andrade

18/05/2008

ELAS E EU







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Motivo da Rosa
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Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
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Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
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Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
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E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
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Cecília Meireles

27/04/2008

TUDO NAS MÃOS DE UMA CRIANÇA
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(27 de Abril de 2008)









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Quase Nada
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O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.
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Eugénio de Andrade

21/03/2008

NESTE DIA MUNDIAL DA POESIA...
Lembremos os nossos Poetas!




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Ser poeta
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Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
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É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
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É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
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Florbela Espanca

19/03/2008

NESTE DIA DO PAI...
(Para te ter comigo... com que prazer me desfolhava!)



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Se eu fosse apenas...

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
– de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...
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Cecília Meireles

29/07/2007

A UMA PRINCESA DESCONHECIDA
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Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos.
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Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição!

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Sophia de Mello Breyner Andresen

09/06/2007

INSTANTES

QUE FAZER?

Para onde partiram os amigos, os amantes, os abraços de carinho, os risos?
Para onde foram os sonhos, todas as promessas depositadas no nosso colo quando éramos tão inocentes, as esperanças adoçadas nos anos verdes pelas histórias mágicas dos príncipes encantados do “para sempre felizes”? Onde ficaram as noites mágicas de palavras sussurradas ao ouvido, com um céu estrelado e o algodão doce da feira, as rifas, as farturas que lambuzavam os dedos e derretiam o coração? Por que caminhos ínvios, negros e dispersos nos perdemos todos, como se hoje estivéssemos aqui numa terra desconhecida, rodeados de gente desconhecida, sem raízes, sem memórias?
As esperanças rasgadas e deitadas ao vento e o vento leva as palavras para terras onde ninguém as entende e, por isso, estamos rodeados deste silêncio ensurdecedor.
Percorremos os dias repetindo os gestos, mas, quando deitamos a cabeça na almofada, a dor no corpo tolhe-nos, a solidão tem cheiro e peso e nada nos vale, nem quando outro corpo dorme a nosso lado.
Que fazer com o resto dos dias, com o resto das ilusões manchadas de rugas, de desilusões, da longínqua recordação do que um dia foi?
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(Luísa Castel-Branco, apresentadora de televisão e escritora)
Fotografia de Pé de Salsa

18/05/2007

OFERTA



HOJE, DE PREFERÊNCIA, SÓ MESMO ROSAS.
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MUITAS ROSAS DE TODAS AS CORES.



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A beleza ideal está na simplicidade calma e serena
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Disse Johann Goethe e eu estou plenamente de acordo.
Fotografias de Pé de Salsa

09/02/2007



Carminho & Sandra


Carminho senta-se nos bancos almofadados do BMW da mãe. Chove lá fora. Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe conduz o carro e aperta-lhe ternamente a mão. Há muito trânsito na Lapa ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de Espanha.

(Mais abaixo na cidade)

Sandra senta-se no banco côr-de-laranja do autocarro 22 que sai de Alcântara. Chove lá fora. Encosta o nariz ao vidro para disfarçar duas enormes lágrimas que lhe rolam pela face. A mãe está sentada ao lado dela. Encosta o guarda-chuva aos pés gelados e aperta-lhe ternamente a mão. Há muito trânsito em Alcântara ao fim da tarde. A mãe tem um olhar triste e vago mas aperta com força a mão da filha de 18 anos. Estão juntas. A caminho de casa de Uma Senhora.

O BMW e o autocarro 22 cruzam - se a subir a Avenida Infante Santo.
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Carminho despe-se a tremer sem nunca conseguir estancar o choro. Veste uma bata verde. Deita - se numa marquesa. É atendida por uma médica que lhe entoa palavras doces ao ouvido, enquanto lhe afaga o cabelo. Carminho sente-se a adormecer depois de respirar mais fundo o cheiro que a máscara exala. Chora enquanto dorme.

Sandra não se despe e treme muito sem conseguir estancar o choro. Nervosa, brinca com as tranças que a mãe lhe fez de manhã na tentativa de lhe recuperar a infância. A Senhora chega. A mãe entrega um envelope à Senhora. A Senhora abre-o e resmunga qualquer coisa. É altura de beber um liquido verde de sabor muito ácido. O copo está sujo, pensa Sandra. Sente-se doente e sabe que vai adormecer. Chora enquanto dorme.

Carminho acorda do seu sono induzido. Tem a mãe e a médica ao seu lado. Não sente dores no corpo mas as lágrimas não param de lhe correr cara abaixo. Sai da clínica de rosto destapado. Sabe-lhe bem o ar fresco da manhã. É tempo de regressar a casa. Quando a placa da União Europeia surge na estrada a dizer PORTUGAL, Carminho chora convulsivamente.

Sandra não acorda. E não acorda. E não acorda. A mãe geme baixinho desesperada ao seu lado. Pede à Senhora para chamar uma ambulância. A Senhora não deixa, ponha-se daqui para fora com a miúda, há uma cabine lá em baixo, livre-se de dizer a alguém que eu existo.
A mãe arrasta a Sandra inanimada escada a baixo. Um vizinho cansado, chama o 112 e a polícia.
Sandra acorda no quarto 122 dias depois. As lágrimas cara abaixo. Não poderás ter mais filhos, Sandra, disse-lhe uma médica, emocionada.
Sai do hospital de cara tapada, coberta por um lenço. Não sente o ar fresco da manhã. No bolso junto ao útero magoado, a intimação para se apresentar a um tribunal do seu país: Portugal.
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Eu voto SIM. Pela Sandra e pela Carminho. Pelas suas mães e avós. Por mim.

Rita Ferro Rodrigues



Porque quero ajudar a salvar mais vidas...
Pela VIDA digna das crianças e das mulheres do meu País...
Contra a hipocrisia...
Eu também... Voto SIM!

05/06/2006

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Neste dia, para alguém muito especial, com um beijinho!
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(Foto de Pé de Salsa)